O MERIDIANO

por mayra vilar lins

trecho do discurso do poeta Paul Celan na ocasião da entrega do prêmio Georg Büchner Darmstadt, 1960
“Ele se afirma – permitam-me, depois de tantas formulações extremas, fazer mais esta – , o poema se afirma à beira de si mesmo, incessantemente ele chama e se busca, a fim de existir , de seu Já-não-mais em seu Ainda-e-sempre.          Esse Ainda-e-sempre só pode ser mesmo um falar . Mas não a linguagem pura e simples e supostamente também não somente a partir da palavra “analogia”.         Mas a linguagem atualizada, libertada sob o signo de uma individuação até radical, mas ao mesmo tempo também consciente dos limites que lhe foram traçados pela língua, das possibilidades que lhe foram abertas pela linguagem, tendo em vista a individuação restante.          Esse Ainda-e-sempre do poema só pode ser encontrado no poema daquele que não esquece que fala sob o  ângulo de incidência de sua existência, de sua criaturização.      Então o poema seria – mais claro ainda que até então – linguagem transfigurada de um indivíduo e, de acordo com a sua mais profunda essência, presente e presença.       O poema é solitário. É solitário e andante. Quem o escreve, a ele fica entregue.        (…)        Mas falo do poema que não existe! O poema absoluto – não, ele certamente não existe, não pode existir! Mas existe, sim,  com cada poema real, existe, com esse poema despretencioso, essa questão imperiosa, essa pretensão inaudita.    (…)       O apercebido e o aperceber-se uma vez só e sempre uma vez e somente agora e somente aqui. E o poema seria com isso o lugar em que todos os tropos e metáforas  querem ser levados ad absurdum.        (…)           Quando se pensa em poemas, toma-se tais caminhos como poemas? serão esses caminhos somente des-caminhos de ti a ti? Mas ao mesmo tempo são também, em tantos outros caminhos, caminhos nos quais  a língua se torna sonora, são encontros, encontros de uma voz com um Tu perceptível, caminhos de criaturas, esboços de existência talvez, um antecipar-se para si mesmo, à procura de si mesmo… Uma espécie de volta à casa.”
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