o fotógrafo do futuro

por mayra vilar lins

Maurício Lissovsky, no Forum Latino Americano de Fotografia 2010:


“…para os antigos, imagem é o que se sucede a tudo que morre, mas as
imagens atuais estão tomadas por um delírio de onipotência, uma
fantasia que encontrou na replicação infinita a justificativa
autorreferente de sua existência. As imagens clichês querem passar,
querem nos fazer crer que agora mais do que nunca a reprodução é parte
indissociável de sua natureza, mas não se deixem enganar, ela ainda
precisam de nós para ganhar impulso, alimentam-se como vampiras do
nosso elã vital sem o qual submergiriam no tsunami do imaginário.
Sugados por suas fotografias, os fotógrafos tornam-se, eles próprios,
imagens, espectros digitais de si mesmos. Como restringir o impulso
das imagens? Como produzir o atrito que perturba esse deslizamento?
Como impor ao clichê a demora que revela a fragilidade da sua
construção, ou evidencia as forças poderosas que agiram na sua
composição? O fotógrafo clássico imaginava-se um cristal translúcido e
viveu às turvas com a questão indefinível da objetividade  das suas
imagens. O fotógrafo contemporâneo é o meio turvo, a lente refratária,
retarda e desvia a passagem das imagens, é a pedra no caminho que
empata o progresso dos clichês em sua marcha vitoriosa frente aos
confins do universo. A imagem, no seu estado atual, deseja tornar o
fotógrafo um ser igual, um ser tão digital quanto ela. O fotógrafo
contemporâneo, o fotógrafo do futuro é aquele que aprendeu a dispor
barricadas de opacidade no percurso das imagens, é este que procura,
de inúmeras e variadas maneiras, inscrever no corpo diáfano da imagem,
as dores da sua própria virtualização. Esse fotógrafo somos todos nós
sempre que nos surpreendemos e hesitamos diante do devir da imagem que
nos atinge.”
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